quinta-feira, fevereiro 17, 2011

A memória é um osso duro de roer!

Discutimos muitas vezes.
Lembro-me de vezes em que a raiva que sentia por ele era tanta, que nem o lençol de lágrimas que me escorria pelo rosto eram suficientes para camuflar o que sentia dentro de mim.

Lembro-me dos olhos cavados característicos e dos dentes inferiores tortos que apareciam no meio da barba quando irritantemente fazia aquelas brincadeirinhas que só ele sabia fazer e que sempre me incomodaram.

Lembro-me da condução desregrada, dos nervos que me dava andar no carro dele, das palmas repentinas, tão repentinas e altas que me turvavam os sentidos e me impediam de ver o seu sorriso de criança a olhar para nós contente pela travessura que tinha feito.

Lembro-me da luta que nos dava para conseguirmos tirar dele mais uma notinha, de como nos obrigada a argumentar, implorar, regatear pelo que tinha na carteira e de como no final sempre nos lançava um sorriso enquanto agarrava nas notas com força para termos de puxar.

Lembro-me de me ir buscar à paragem de autocarro, com o cão, logo ali em frente a casa às 3, 4, 5 da manhã, de sweat branca, velha, larga, manchada... e aquelas calças de fato de treino azuis que insitia em usar em conjunto com as meias brancas de desporto e o sapato de verniz que tão bem ficava no conjuntinho. Lembro-me do ar cansado, ensonado, despenteado e com o vincos da almofada...a pena que me davas!

Lembro-me das mãos, iguais ás minhas e que tantas vezes depois de voltar da terra traziam marcas de enxada e lascas de madeira ferindo a pele...e das pernas com as canelas marcadas de quedas e mágoas que foi fazendo ao longo dos anos pelos mais variados motivos.

Lembro-me das corridas que dávamos de vez em quando quando me sentia inspirada e que ele nunca recusava. Lembro-me dos patins que um dia comprou e que depois deixou de parte por ter mandado um tralho quando tentou andar sozinho. Dessa experiência apenas resultou num par de patins abandonados.

Lembro-me de me ensinar a andar de bicicleta, de correr tempos infinitos a meu lado segurando na bicicleta e de como fazia aquele truque dos pais que quando olhava para trás afinal ele já não estava lá, e ficava nervosa por estar a andar sozinha.

Lembro-me dos passeios de bicicleta que dávamos pelos jardins de belém, e de como um dia fomos quase até ao Terreiro do passo, e no dia seguinte ele quase nem se podia sentar de dores musculares.

Lembro-me do passo acelerado que sempre tinha e que tantas vezes me obrigou a fincar o pé e parar até que ele se désse conta que estávamos quase a correr, e assim esperar por mim...e dava-me a mão para me puxar, para andar ao ritmo dele...nunca o consegui parar...

Lembro-me de o ver olhar para nós, cheio de fome, enquanto comíamos no chinês onde tantas vezes fomos com ele, e de como passou a preferir mesas mais escondidas.

Lembro-me dos esforços para não mostrar que se sentia sozinho, das revistas que usava como bandeja e que depois ficavam abandonadas no sofá, da loiça por lavar acumulada no lava-loiças. Do cheiro da casa.

Lembro-me de como insistia sempre para que ligássemos à mãe, apesar do frete de jovens imberbes estampado na nossa cara.

Lembro-me de quando o vi sem barba pela primeira vez em 28 anos, e de como descobri um pai comido pela dor, mas sempre cheio de força para lutar.

Lembro-me da perna, do pé, da mão pendurada, do corpo sem carne debaixo do fato que usava para esconder a magreza excessiva.

Lembro-me da cama, das máquinas, das mãos secas e do corpo imóvel e tragado, enquanto os olhos sedentos não parávam um segundo.

Lembro-me de quando me despedi dele quando tudo o que me apetecia dizer era que não fôsse, que não lhe tinha dito tudo o que ele precisava de ouvir, que não sabia viver sem as constantes surpresas e sustos que frequentes que me deu. Não lhe disse que o meu jeito seco foi herdado com tanto carinho do seu Ser e que apesar de o negar, sou o reflexo do amor dele.

Ainda me protege em sonhos. Ainda me agarra na mão e obriga a andar. Ainda me sorri e faz travessuras. Ainda me recorda com frequência que não estou sozinha e que esperará naquela paragem as vezes que forem precisas, o tempo que fôr preciso para que eu me diverta sem preocupações.

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Conexão

Há coisas que nos espantam, que nos surpreendem.

Neste mundo, terreno ou não terreno que nos suporta, dá vida e orienta, existe uma qualquer força que nos une, movimenta e ajuda.
Hoje estou mais crente do que nunca de que não estamos sós.
Somos e formamos uma energia que não tem explicação, mas que não nos abandona nunca.

Vivo uma experiência que nunca tinha vivido antes.

Lembro-me dos dias em que as coisas corriam mal...lembro-me de dias distantes e difíceis em que tudo era complicado, tirado a ferros!...lembro-me de chorar, de desesperar e de acreditar piamente que nunca as coisas seriam fáceis para mim e que há pessoas que têm tudo facilitado por uma qualquer energia ou superioridade que lhes permite flutuar pela vida sem dificuldades, e que outros, como eu, embora sem terem do que reclamar, teriam sempre de lutar para chegar onde achavam que deviam.

Hoje concluí que algo devo estar a fazer, ou devo ter feito para ter a sorte que tenho de ter a família que tenho, os amigos que tenho, a vida que levo e nunca, nunca ter estado realmente só em nenhuma luta, por muito dificil que fôsse. Nem sempre as coisas foram fáceis, mas poderiam ter sido bem mais difíceis ou complicadas, e muitas vezes, eu sei, que fui eu que fui atrás dessas dificuldades.
Não tenho dúvidas de que sempre lutei por tudo o que obtive mas se não fôssem as pessoas que tenho ao lado, metade do que sou hoje eu não seria.

Hoje experimentei e assimilei pela primeira vez que o céu está do nosso lado.
Hoje caiu sobre mim uma qualquer noção, iluminação, uma "coisa" que me fez perceber que há algo que me ajuda, que me acompanha e que seja o que fôr um dia vou ter de retribuir, e espero do fundo do meu Ser ter a capacidade de o ver com clareza e poder fazê-lo tão bem como hoje o fazem diáriamente por mim. Espero conseguir ver claramente que está na minha hora de fazer o mesmo pelos outros...que não é pouco!!
Acho realmente que hoje assimilei o que é a generosidade.

Espero que o que aprendi nunca desapareça do meu cérebro e que o meu coração consiga ser tão aberto e tão generoso como o dos que me rodeiam. Que bom sentir que mesmo dadas as minhas condições não estou sozinha e sou, sim, sem a menor dúvida, sou feliz! Que mais poderia ser se não simplesmente uma pessoa feliz?
Que sensação estranha e plena e que tão estranhamente não está relacionada com qualquer relação amorosa, mas simplesmente com a compreensão de que o mundo não me dificulta nada, e pelo contrário me ajuda em todos os sentidos!

Acho que se não fôssem as dificuldades que vivi, e na verdade chamar-lhe dificuldades parece-me neste momento tão superficial, não seria capaz de o ver com tanta clareza como o vi hoje.

Será que algum dia conseguirei realmente explicar por palavras o que sinto?
Será que algum dia conseguirei ser para os outros o que hoje são para mim?
Será que tenho em mim a generosidade para dar como hoje recebo?
Será que sou capaz de acreditar sempre nesta força e deixar que ela me guie sem duvidar?

Não sei...mas espero pelo menos nunca esquecer este período da minha vida e tudo o que ele me ofereceu!

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

há que saber usar as palavras

Não me contive, e depois de ler isto tive de transportar para aqui estas palavras...chamem-me o que quiserem, mas nada como saber usar as palavras!

"Às vezes dizes que não te ouço. Não é verdade. Eu ouço-te sempre, só que às vezes não sei o que dizes. E não, não é por não te compreender. É porque gosto de mergulhar na tua voz em inconstantes apneias de Amor. Nunca dançaste ao som duma música sem ligar nada à letra? Pois é isso mesmo, às vezes falas e eu danço. Porque te amo."

Garras e asas de condor...

Neste grandioso dia, achei por bem deixar a minha mensagem...

Desde sempre que este poema me acompanhou... se estou triste, são os seus versos que canto...se estou apaixonada canto-o ainda mais alto...se estou bem, nem me lembro dele!

No entanto, hoje, dia dos namorados em Portugal, resolvi recordar os meus dias de paixão e o que fiz um dia para alguém especial que ainda guardo comigo.

A essa pessoa que não houve os meus murmúrios, aqui fica um recuerdo de bons tempos...

Ser Poeta é ser mais alto,
É ser maior do que os homens
Morder como quem beija,
É ser mendigo e dar como quem seja,
Rei do Reino de Aquém e de Além dor.

É ter de mil desejos o esplendor,
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede fo infinito!
Por elmo as manhãs de ouro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito

E é amar-te assim, perdidamente,
E é seres Alma e Sangue a vida em mim,
E dizê-lo cantando a toda gente...

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

De tudo...nada...

um dia falei de saudade...de como falar sobre o que nos dá saudade torna a ausência mais pesada...
um dia falei de força...de como pode ser audaz como uma espada que abre caminho e outras vezes essa mesma espada ter o peso de uma cruz dificil de transportar ao longo do caminho...
um dia falei do vazio...de como a sua presença consegue encher o espaço e esvaziar a alma...
uma vez falei de mim...de como abarco tanto e ao mesmo tempo não deixo que me limitem...
uma vez falei de ti, de quem me ama...de como isso me faz falta e mesmo assim não me acalma...

falei...falei...falei...e no entanto, por mais que escute, parece que não ouço...e a ausência entristece, e a cruz é arrastada pelo chão deixando marcas que ninguém vê, e o vazio sufoca, e o espaço livre não me conforta...e a calma não me satisfaz...

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Escolhas

1 ano desde que me afastei do meu mundo e parti...

...e eu ainda não sei se me sinto feliz ou infeliz...Quanto faltará para perceber isso?

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Mais um roubo...o último...mas tinha mesmo de ser!!!

Inteligência é o maior afrodisíaco que um homem pode oferecer...

Nem de longe é a beleza de um homem que encanta a mulher. Para a sorte de vocês (ou azar, vai saber...), nosso barato é diferente, e pode ser definido, entre outras coisas, como "virilidade". Essa definição tem muito pouco a ver com coçadas supostamente discretas nos testículos, cuspidelas na sarjeta ou exaltação do sistema nervoso diante de 22 homens suados correndo no gramado, imbuídos do espírito de encaçapar a gorduchinha.

Vai muito além da testosterona exacerbada.

Tem a ver com autoconfiança, sempre. E com perspicácia, qualidade muito rara num homem. Ou você pensou que seria fácil? Não ligamos pra barriga, careca ou pneuzinhos, até porque sabemos muito bem que nada disso atrapalha, tanto quanto o seu oposto pode ser absolutamente desprovido de encantos se não vier acompanhado de um perfil psicológico substancioso. Mas o que afinal de contas isso quer dizer, nunca te explicaram. Então lá vai.

Voltemos à virilidade.

Acho que poucas coisas nesta vida são mais eróticas e provocantes do que a inteligência. E quem a tem também possui senso de humor - porque somente os inteligentes não levam nada muito a sério e sabem se divertir mesmo com as intermináveis chatices cotidianas. Então temos inteligência e senso de humor, que somados à malícia (outro atributo dos neurologicamente privilegiados) arrebatam as mulheres e tornam um homem ainda maior aos nossos olhos. Porque não basta pregar a gente na parede. Isso todo ser munido de um bom falo é capaz. É preciso, para se diferenciar da varonil multidão, despertar nosso impulso primitivo racionalmente ativável.

Eternamente alunas.

Vocês olham uma mulher e pensam: "Meu Deus, que peitos, que nádegas, que cinturinha escultural, que boca mais lasciva...", e já começa o devaneio e o desejo de abater.
Nós, não. É impossível uma mulher (minimamente inteligente, claro) olhar para um homem esteticamente interessante e, sem nenhuma conversa, desejar ser invadida. Não. Eis aqui a diferença: nosso desejo de invasão não prescinde do intelecto (você já deve ter presenciado o olhar admirado e sensual das alunas de um grande professor). É preciso passar primeiro pela porta da razão para chegar à porta da alegria. E quanto melhor for o instrumento pensante do sujeito, maiores as chances de acolhida de um outro também interessante e mais mecânico agente.

Porque mulher gosta mesmo é de ser surpreendida, e isso só acontece quando se depara com alguém mais esperto do que ela. Todos sabem o jogo que estão jogando, esse interminável gato-atrás-do-rato que motiva nossa vidinha. E é preciso reconhecer as suas regras, o que requer maturidade. Homem que baba demais, no chance. Os que bajulam e não convencem, também. Os cafas, cruz-credo! A gente tem olho clínico pra eles e passa longe quando os vê. Os demasiadamente (ou precipitadamente) românticos têm grande chance de morrer na praia, porque acaba o desafio. Os posudos e pretensiosos não duram mais do que uma noite. Restam então os inteligentes.

Estes, sim, sabem do que somos feitas. E sabem que, por trás de toda empáfia, vaidade ou sedução, está um bichinho indefeso em busca de acolhimento, louco por um colo. A virilidade está nisso, na consciência masculina de que não somos assustadoras nem lascivas, mas apenas mulherzinhas assustadas e ávidas por um olhar que nos descubra. E nos devore, de preferência.


(Autoria dada a Kika Salvi)

...mais um furto!

tuas palavras, que eu nem ouço...

Tua atenção, que existe só por necessidade tua de mim, é tão somente suficiente quanto tuas palavras lançadas sem motivo algum apenas para embalar-me em teus braços, quando insistes em me convencer que sou tua, que somos iguais, que o que vivemos é belo.

Michele S.B.

Furto de outro blog...

A provocação é uma prova de intimidade.
A gente agride apenas quem é capaz de nos perdoar.

(Fabrício Carpinejar)

terça-feira, dezembro 28, 2010

Como nos filmes!

Foi só naquele momento que me apercebi da realidade dos factos.

Naquele momento, por uns breves instantes deixei de ouvir os ruidos da rua senti-me dentro de um filme! Vi o mundo de cima, aproximei-me do brasil, de são paulo e afundei em mim mesma, sozinha, no meio de uma rua de um bairro de São Paulo com uma senhora ao lado que desconhecia e que me perguntava, com aquele sentimento de protecção que as mães têm espelhado nos olhos:
- Mas voçê tem família aqui?
- Não...
- ...e amigos?
- ...Não...conheço umas pessoas...
- ...e veio para aqui fazer o quê?
- Vim trabalhar!
- Mas tem trabalho?
- Não...
- ...hum...Eu vou-lhe deixar o meu número de telefone prô caso di voçê precisar, anote ai...

...Ainda não me tinha apercebido do que é estar assim...

Imaginei os emigrantes...que sensação!

...felizmente tudo passa...

...e tudo passou quase no mesmo instante em que começou!! :D

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Baila comigo - Shangrilá

Uma letra linda...

Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio
Viver pelado, pintado de verde num eterno domingo
Ser um bicho preguiça e espantar turista

E tomar banho de sol, banho de sol, banho de sol, sol

Se Deus quiser um dia acabo voando
Tão banal, assim como um pardal, meio de contrabando
Desviar de estilingue, deixar que me xinguem
E tomar banho de sol, banho de sol, banho de sol, banho de sol

Baila comigo, como se baila na tribo
Baila comigo, lá no meu esconderijo

Se Deus quiser um dia eu viro semente
E quando a chuva molhar o jardim, ah, eu fico contente
E na primavera vou brotar na terra
E tomar banho de sol, banho de sol, banho de sol, sol

Se Deus quiser um dia eu morro bem velha
Na hora "H" quando a bomba estourar quero ver da janela
E entrar no pacote de camarote.

Se me der na telha sou capaz
De enlouquecer
E mandar tudo pr´aquele lugar
E fugir com você pra Shangrilá
E me deixar levar
Por um beijo eterno
Por seu corpo envolvente
Mais quente que o inferno

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Chega de Saudade

Já chegou...e eu fiquei.
30 anos passaram, quase 31. As expectativas e as possibilidades continuam cada vez mais altas, e o mundo continua enorme, mas eu, hoje, sinto-me pequenina e presa na liberdade que conquistei.

Continua por lá...e eu por cá andei.
1 ano passou, 12 meses certos desde que o mundo nos reaproximou. Mas o meu mundo continua enorme, e é tão dificil sair do circulo que instintivamente traço vezes sem conta à volta dele.

Ainda aqui estou...e por cá vou ter de permanecer.
10 meses passaram, quase 11. Tudo continua no lugar mas eu já não sei onde isso é, esse meu lugar, o meu lugar...estou sem abrigo, sem poiso, sem rota, sem raizes, sem nada... estou sozinha (e não estou)...mais uma vez...e mais uma vez por escolha minha, por saber tão bem o que quero e por não saber absolutamente nada do que realmente preciso.

Sou um reboliço, um monte de emoções, de conquistas e de perdas, de caminhos e encruzilhadas. Sou tudo e não sou nada. Sei o caminho e nele me perco vezes sem conta só por vontade de mais uma vez ir à procura de sei-lá-o-quê. Estou e não estou, quero e não quero, tenho e não tenho, preciso e não preciso, encontro e desencontro...Será possível existir mesmo alguém que na verdade não existe?

Chegou a hora de me encontrar, de me re-encontrar ou então de me perder de vez, de entrar de uma vez por todas no eixo que me faz rodar ou então de o partir e assumir o desgoverno do que sou.

Nada de penas ou piedades...conquistei a minha vida e nela vou sempre ser tudo o que sou. Tudo e nada.

...e há outros...

...há outros em que as palavras estão tão cheias que incham o meu corpo de pensamentos que de tão altos me sinto surda...

...nestes dias, prefiro apenas aceitar, calar, e esperar que os arrepios que as vibrações das palavras me provocam não me denunciem...

...pelo meio aproveito e vou comer, que com fome não se consegue pensar!

sábado, novembro 27, 2010

SEM PALAVRAS

Há dias em que me sinto assim...

No vazio das palavras que não são pronunciadas

... :(

quinta-feira, novembro 18, 2010

O princípio do fim da Primavera

As andorinhas sempre foram aves que me encantaram...a sua delicadeza e beleza alinhada sempre me fascinou! Não é uma ave igual ás outras, e só o seu desenho no céu basta para as conseguirmos diferenciar das outras avezinhas do quotidiano.

Desde pequenina que elas me rondam...lembro-me de, na minha infância, uma vez um filhote ter caído de um dos ninhos que elas ocupavam todos os anos mesmo por cima da nossa janela do quarto. A presença delas sempre me animou e eu ficava feliz que tivéssem escolhido a minha janela para abrigar o seu lar...ver aquele pequeno ser ainda de olhos fechados perdido e ao mesmo tempo ali tão perto de casa deu-me tanta pena que nunca me esqueci dele.
Tratámos dele como pudémos, mas não resistiu...na verdade, acho que nunca tive muito talento para cuidar de coisas frágeis...desde plantas a animais, tudo me morre nas mãos por muito que me dedique e essa andorinha foi um desses casos.

...Ultimamente tenho vivido muitas coisas que me mostram o quão grandiosa é a vida para nos prendermos a pequenas desilusões...e por isso aqui fica a minha dedicatória ás andorinhas...aves da minha vida, que vão e vêm ao sabor das estações...

sexta-feira, outubro 29, 2010

Até as borboletas säo venenosas...

Descobri isto há dias...existe uma espécie de borboleta que muito suavemente te espeta o seu veneno e lentamente se vai embora deixando a vitima a agoniar de dor...

Poderia fazer muitas analogias com esta historia...mas perdi-me no meio da quantidade de pensamentos que isto me trouxe...ainda me sinto a flutuar entre os espíritos que me acompanharam nesta ultima noite...estou em branco...o veneno está a fazer efeito e tudo se mistura...

quarta-feira, outubro 13, 2010

Passarinho no carrinho!!

Mais uma moedinha, mais uma voltinha...
Criança näo paga mas também näo anda...

Buuuum...mais um choque do carrinho e mais um salto no banquinho!!

Gosto dos carrinhos de choque...estou sempre a pôr mais uma moedinha e a recomeçar... E estranhamente parece-me sempre que já dei voltas suficientes para conhecer o processo e näo me assustar com os embates das viagens...mas sou sempre apanhada de surpresa!!

Quem foi que me pôs no corpo uma alma de condor e um coraçäo de passarinho?

quinta-feira, setembro 30, 2010

Há dias em que o silêncio percorre o meu pensamento de forma pesada.
É nestes dias que se arrastam imagens de variadas coisas, todas elas em silêncio, e com a serenidade de fotos tiradas há anos, que me dá para a saudade.
É nestes dias de silêncio que me sinto triste, vazia e com tanta coisa que ficou por dizer a flutuar por entre as imagens pesadas que passam na minha mente.
É fácil cairmos nas saudades de nós mesmos e das pessoas que nos rodeiam... é fácil dar por mim perdida em mim mesma, nos meus pensamentos, memórias e tudo o mais que fiz e não fiz, que gostava de dizer e não disse, que gostava de dar e não dei... e a parte do dar é sempre a pior...
Saber dar não é fácil, mas saber receber também é uma ciência. Hoje as minhas memórias e o meu silêncio vagueiam por pessoas a quem tive vontade de me dar e a quem no final não fiz, ou a quem fiz e que não souberam tirar o devido proveito da minha tão generosa oferta! Digo generosa porque considero que de tudo o que se pode dar, nós somos o melhor presente...estar disponível e disposta a estar com alguém ou a partilhar da sua vida, das suas dores e alegrias é, quanto a mim a mais generosa oferta que qualquer pessoa pode dar. É a isto que eu chamo amizade, mas também amor. Mas é preciso saber fazê-lo.
Obviamente que tem de existir um equilibrio entre o que um tem para dar e o que o outro quer receber, e se um quer receber pouco porque acha que tb não tem muito para dar não há maneira de o forçar a receber tudo o temos disponível...
Não se pode obrigar alguém a ser nosso amigo só porque nós achamos que podemos ser o seu melhor amigo...tal como não se pode forçar ninguém a receber-nos como nós achamos que deveria ser, ou como nós gostaríamos, e esse é para mim o maior desiquilibrio da natureza!
Temos de procurar e procurar até encontrar as pessoas que estejam dispostas a receber tudo o que temos para elas e mesmo assim isso pode correr mal.
Ás vezes lançamos o que temos de melhor para o ar há espera que alguém agarre, que note, que dê o valor e não nos aceite apenas porque sim...
Hoje as imagens do meu silêncio mostraram-me o que de melhor os outros me deram, e que eu acabei por não poder ou saber retribuir, mas mostraram-me também o que de melhor eu dei, ou quis dar de mim, e que não foi aceite...

sexta-feira, setembro 17, 2010

Bonsai

Ás vezes sinto-me assim, pequenina como uma bonsai.

Os ramos cortados a cada tentativa que faço. Moldados às mãos dos outros que acreditam que a forma que tenho por natureza não é a mais bonita ou a que mais lhes apraz, e assim, a cada tentativa que tenho de mostrar aquilo que realmente quero, gosto, ou me apetece, sinto a tesoura cortar e deixo cair por terras a minha vontade para ceder perante a vontade do outro.

E não é que o faça contra vontade, ou que me sinta presa a essas mãos que me moldam, é mesmo porque sei que se assim não for não estarei de acordo, não me olharão com a mesma ternura, deixarei de caber dentro do espaço exíguo que têm reservado para o meu pequeno vaso…

Às vezes sinto que tenho de me manter assim, pequenina…dentro dos limites previstos para a pequena árvore que é suposto eu ser…não interessa se tenho sangue de frondosa laranjeira ou generoso castanheiro…até poderia querer ser um pinheiro bravo e atirar pinhas por todos os lados…mas não…às vezes há que ser simplesmente a bonsai que os outros talham á sua medida e que se esquece de que o céu deveria ser sempre o seu limite…

quarta-feira, setembro 08, 2010

O enrolar das correntes

Ás vezes os dias correm e as noites voam e nós nem damos por isso...

Até ao dia em que o correr dos dias e o vôo das noites nos deixa com um nó na garganta...

O nó...
Aquele nó que não conseguimos desatar, aquele nó que já sentimos antes e que traz com ele ameaças de chuva, tormenta e tempestade...
Aquele nó que sabemos que traz com ele o peso que até agora não queríamos sentir...

Hoje foi evidente! O nó não escapou sem que o sentisse!
Tudo me fez borbulhar, tudo me fez retornar no tempo, tudo me fez sentir o que não queria sentir, e foi impossível escapar ao rebentar da corrente que já sabia que viria, mas que adiei por saber que mesmo estando à sua espera, preferia atirar-me de cabeça na onda que me puxou e me enrolou.
Queria afundar-me no fundo do mar, queria sentir o fresco das ondas, a vibração das correntes que vêm de outros mundos e que me arrastavam.
Queria sentir o perfume das flores, por muito intoxicantes que fossem.
Queria inundar-me nesse mundo que por uns tempos não tive, apesar de saber que seria uma ilusão e que o que queria ver na verdade não existia. E fui avisada...sim, sei que o fui, sei que tinham razão, sei que preferi tapar os ouvidos e olhar o céu com olhos de quem só vê estrelas cadentes e cheias de desejos.

Sabia...sim é verdade que sabia com a consciência de quem sabe que o ananás vai amargar naquele cantinho escondido da língua que nunca nos lembramos que está lá até ao momento em que o ácido escondido no doce se revela...

E hoje senti...senti finalmente esse arrepio e mais uma vez socumbi à consciência de quem é obrigado a ver a realidade do que escolheu por deliberada vontade...enrolada nas ondas do destino e das vontades deixei-me levar de olhos fechados, e hoje não pude deixar de os abrir e de admitir que não é suficiente.

Sei que não era o que procurava, mas deixei que a suavidade me acalmásse a pele ardente de vontade e a boca sedenta de saudade...

Deixei, e hoje colho os frutos da minha saudade calada, hoje senti de novo o nó e hoje vou ter de admitir que não é suficiente, nunca o foi, mas sei que o escolhi assim...
Amanhã aqui estarei para sentir a lingua picar de novo...
Amanhã aqui estarei mais uma vez para me enrolar nas ondas e deixar que o corpo aceite a corrente...
Amanhã vou ver se desatei o nó ou se continuo a achar que é insuficiente...